Posted on jan 31, 2017 in Blog | 0 comments

 

Podemos definir o trabalho de Wilhelm Reich como a ORIGEM SINTETIZADA DE UM SABER. Depois de tantos anos, seu discurso foi enriquecido e segue evoluindo. Não é uma múmia da história, senão que pertence ao grupo de pessoas que aportaram VIDA à dinâmica autodestrutiva da espécie humana. Ao dizer isso, não pretendo mitificar, nem idolatrar, somente quero recordar que em nosso crescimento humano, o Dr. Reich realiza um papel importante.

Reich vive em Viena (1918-30) na época do apogeu de dois jovens movimentos, o marxista e o psicanalista, nos quais participará. Interessado por Sexologia, Reich conhece Freud (1919) e se liga à sua forma de ver as coisas e a seus principais enunciados: a libido ou energia sexual, como fonte do desenvolvimento vital; a ideia de que a criança nasce com sexualidade; a neurose como distúrbio fruto da repressão sexual nas distintas fases infantis; o inconsciente; e sua visão terapêutica.

Em 1920, foi aceito como membro da A.P.I. (Associação Psicanalítica Internacional), quando tinha 23 anos. A partir deste momento, sua atividade clínica vai ser o foco central do seu trabalho. Especializa-se em Psiquiatria, atuando como psicanalista didático no Instituto Psicanalítico de Viena, onde ocupará o cargo de diretor da primeira Policlínica de Psicanálise.

Durante estes anos, suas contribuições à Psicanálise serão muitas. Algumas delas foram incorporadas à Teoria Psicanalítica – sua visão do chamado “transfert negativo”, o papel da resistência no processo analítico e técnicas para neutralizá-las – e outras foram rejeitadas pelo que de conflito continham. O masoquismo como consequência da repressão do prazer e do impulso vital sexual; a rejeição da ideia de que o “complexo de édipo” seja universal, porque é fruto da educação patriarcal, autoritária e sexofóbica; a tese de que a “impotência orgástica” é a que mantém a estase de energia libidinal e, portanto, a neurose, vendo a estrutura caracterial das massas baseada na submissão à autoridade e na impossibilidade de viver suas vidas como consequência da repressão sexual (o animal castrado deixa de ser agressivo).

A experiência destes anos foram a base para o desenvolvimento posterior de sua metodologia clínica, denominada Vegetoterapia Caracteroanalítica, a qual, segundo Reich, é o resultado da evolução dos princípios freudianos, muitos dos quais se aniquilaram ou se transformaram, porque Freud e o movimento queriam ser aceitos pela ciência oficial e, para isso, tinham que reformar certas teses. Em seu contato com o trabalhador assalariado de Viena, por seu trabalho na Policlínica Psicanalítica (centro gratuito onde as pessoas recorriam, sobretudo por seus problemas sexuais), Reich confirmou as ideias vistas na leitura de Marx e foi vendo uma vinculação direta entre sua dialética e a de Freud. Fruto desta concordância foi o livro “Psicanálise e Materialismo Dialético”.

Influenciado por esta ótica oficial social, concede uma importância primordial à profilaxia como meio de diminuir os futuros problemas do indivíduo. Profilaxia que desenvolverá com um grupo de colegas, criando centros de higiene sexual, onde se davam informações sobre contraceptivos, aborto, etc; reivindicando a livre sexualidade da criança e do adolescente, além do apoio social para isso. Durante estes anos, milita no Partido Socialista e, posteriormente, no Comunista. Fazendo sua própria análise didático com Sadger e Paul Federn e, em Berlim, com Sandor Rado.

Em 1930, marcha para Alemanha, onde militará no partido comunista e fundará o movimento Sex-Pol (sexologia-política), que foi uma tentativa de unificar os diversos movimentos sociais existentes com finalidades comuns para fazer pressão social e que aglutinou mais de 40.000 membros. Isto assustou ao próprio partido e também ao movimento psicanalítico. Alguns diziam que a ideia desviava a juventude proletária dos objetivos reais e outros afirmavam que se estava politizando uma ciência.

Em 1934, por diversos motivos, Reich foi expulso do partido e da A.P.I., tendo que sair de Berlim porque estava na lista negra de Hitler. Seus livros foram proibidos aos militantes comunistas e meses depois queimados pelo governo nazi.

Foto: via

De 1936 a 1939, vai residir na Noruega, onde estrutura a Vegetoterapia, vendo nesta metodologia terapêutica o meio para recuperar a “potência orgástica”, quer dizer, a capacidade de prazer e de abandono no orgasmo para, portanto, ter uma autorregulação energética-biológica e equilibrar o Sistema Nervoso Vegetativo, que regula as funções vitais do organismo. Com bases psicodinâmicas e neurofisiológicas próprias, mediante um processo de crescimento pessoal, Reich vai trabalhar com a palavra e com o corpo do sujeito, desbloqueando os sete segmentos funcionais musculares da “Couraça” defensiva, liberando, assim, as emoções e as lembranças reprimidas ligadas a ela.

Também nestes anos, em colaboração com outros cientistas – entre os quais se encontrava Roger Du Teil – vai trabalhar na observação dos movimentos dos protozoos, vendo uma relação funcional entre estes e os que desenvolve todo órgão vital (contração-expansão) e no orgasmo (tensão-carga-descarga-relaxamento), descobrindo as vesículas de energia que representam um estágio de transição entre a não vida e a vida, as quais denominamos BIONS. Por este trabalho, a Sociedade Internacional de Plasmologia concedeu-lhe o título de membro honorífico, em 1939. Também investigou os processos bioelétricos da pele de acordo com a ideia de que esta tem uma carga energética, que aumenta nos fenômenos de prazer (expansão), sobretudo nos sexuais, e descende nos de desprazer (contração), fundamentando sua teoria da antítese da vida vegetativa (prazer-angustia).

Interessante dizer que tanto nestes anos quanto no resto de sua vida na América, jamais esqueceria seu compromisso social (não político, porque não voltou a filiar-se a nenhuma organização), relacionando todas suas investigações com a causa primeira, que dizer, com as condições econômico-sociais e os meios de transmissão ideológica de um sistema. Criando uma síntese funcional entre a Biologia, Psicologia e Sociologia.

Convidado pelo Dr. Teodore Wolfe (especialista em medicina psicossomática) para ser professor adjunto de Psicologia Médica em Nova York (se encontraria na mesma universidade que Malinowski, etnólogo cuja tese Reich confirmará e reforçará sua visão da sexualidade) e diante da instabilidade legal na Europa, muda-se para a América. Durante os 17 anos que desenvolveu ali sua atividade, gerou muitas hipóteses e fundamentou outras, levando um trabalho interdisciplinar, fruto da qual se fundaria “Orgonon”, que era uma comunidade de cientistas onde se trabalhava na formação de orgonoterapeutas.

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Reich dá o nome de Orgonomia à sua ciência, ao fundamentar biológica e fisicamente a existência da energia vital orgonômica no estudo das leis da energia orgônica e suas aplicações (chegando a utilizar um motor movido por esta energia, demonstrando a possibilidade de ter um controle meteorológico com o “cloud-buster” e utilizando o “Or.Ac.” – acumulador de energia orgônica – e o “dor buster”, como instrumentos médicos na sua luta contra a enfermidade). Colocando, ainda, os meios para prevenir o sofrimento no animal humano, possibilitando a cada novo ser humano que seus ciclos vitais e sua capacidade de autorregulação seja respeitada (por meio da “Vegetoterapia pré-natal” durante a gravidez e a assistência orgonômica no parto).

Mas este trabalho viu-se interrompido em várias ocasiões pelas intromissões do governo americano. Primeiro com o FBI, sendo detido há pouco de sua chegada. Posteriormente, pela comissão “de drogas e alimentos” que, em plena caça às bruxas, acusam-no de vender o Or.Ac. sem patente, criando uma espiral de situações cada vez mais conflitivas que culminaram na incineração de toda sua obra e aparatos, uma multa fortíssima para o seu instituto e sua prisão e do Dr. Silvert, morrendo Reich na prisão de Feniswurg, enquanto cumpria sua condenação de 2 anos, em 3 de novembro de 1957.

A morte de Reich provoca uma forte crise moral e infraestrutural em todo o movimento orgonômico da América, o qual não se reestabelecerá até 1968, data na qual o Dr. Baker e outros discípulos e colaboradores de Reich criam o Colégio Americano de Orgonomia e fundam a revista “Journal of Orgonomy”, desenvolvendo, desde então, um forte trabalho científico e aprofundado nos distintos ramos científicos da Orgonomia, ainda que esquecendo algumas das bases sociais radicais do Dr. Reich.

Na Europa e em outros lugares, colaboradores de Reich seguiam seu trabalho tanto durante sua estância na América quanto depois de sua morte. Assim, a Dra. Nic Waal formava em Oslo um centro de tratamento de crianças e adolescentes, onde se aplicava a Vegetoterapia nos transtornos psicóticos, processos autistas e certos casos de sub-normalidade. O Dr. Ola Raknes desenvolveu um intenso trabalho na formação de orgonoterapeutas, fruto do qual será a criação da Scuola di Orgonoterapia (S.E.O.R.) e, junto com seu diretor Dr. F. Navarro, fundamenta e amplia as bases e o método da Vegetoterapia. O Dr. Walter Hoppe, em Tel Aviv, utilizou os Or. Ac. no hospital central em tratamentos de câncer, leucemia e outras enfermidades degenerativas com grande êxito. Todos estes e tantos outrnos nomes contribuíram para que a Orgonomia deixasse raízes em alguns setores profissionais da juventude atual.

Laboratório orgônico de Reich. Foto: via

Outros campos profissionais também chegaram a reconhecer ou a coincidir com coisas que Reich já havia elaborado, como o casal Kirlian, com seus estudos sobre a Aura, que Reich denominou como manifestação externa da energia orgônica nos seres vivos. O Dr. Alexander, com a relação que faz entre o sistema neurovegetativo e as enfermidades funcionais, que é um dos pilares da Vegetoterapia. Os estudos de Grossart-Maticek sobre a influência da família, da falta de afeto e da sexualidade na aparição do câncer, que Reich já havia fundamentado em seu livro a “Biopatia do câncer”. As repercussões sobre as células embrionárias – com risco de mutações – e sobre a pele ter focos de neón, que estão sendo desenvolvidas na atualidade pela Universidade de Sydney e que Reich já havia descrito, explicando-o sob a ótica de que o gás neón anula os efeitos vitais da energia orgonômica do organismo. A visão cosmológica atual de que não existe o vazio, senão pelo contrário, o espaço está ocupado por “algo” que desprende uma radiação a três graus Kelvin e que Reich havia enunciado há 30 anos, explicando este fenômeno como o efeito luminoso e calorífico da energia orgonômica.

Algumas destas teses, antes de Reich, já haviam sido mencionadas por outros investigadores, mas Reich as fez suas globalizando-as sob seu método científico, o funcionalismo orgonômico, fruto de um trabalho continuado e evolutivo que não terminou. Podemos englobar em três partes o resumo da sua obra, a saber: sua Teoria do Orgasmo, e a partir dela todo seu trabalho clínico; sua análise Biossocial das relações humanas; e seu descobrimento das leis e aplicações da Energia Orgônica.

Preencheríamos muitas cartilhas enumerando suas contribuições concretas. A título de exemplo, enumero algumas delas:

  • contribuições psicanalíticas e técnicas da Análise do Caráter (1923-1934);
  • inibição respiratória e couraça muscular (1928-34);
  • o papel do irracionalismo e da economia sexual humana na origem das ditaduras (1930-34);
  • o reflexo do orgasmo (1934);
  • natureza bioelétrica da sexualidade e da ansiedade (1935-36);
  • os bíons (1936-39);
  • origem da célula cancerígena a partir de tecido animal bionicamente desintegrado (1936-39);
  • descobrimento da bioenergia (energia orgônica) nos bíons – SAPA (1939) e na atmosfera (1940);
  • invenção do Or.Ac. (1940) e de um medidor de campos de energia orgonica (1944);
  • investigação experimental da biogênese primária (1945);
  • hipótese de sobreimposição cósmica de duas correntes de energia orgônica como base de formação dos furacões e das galáxias (1951);
  • efeitos da radiação antinuclear pela Energia Orgônica – experimento Oranur (1947-51);
  • teoria da formação de desertos na natureza e no homem (deserto emocional) e demonstração de sua reversibilidade (1954-55);
  • teoria da enfermidade baseada na acumulação de D.O.R. (energia negativa fruto do estancamento de energia vital ou orgônica pelos bloqueios musculares) nos tecidos (1954-55);
  • equações orgonométricas (1950-57).

“Com relação à minha pessoa e à minha obra, peço ao leitor que considere um fato simples: os psicanalistas neuróticos me qualificam de esquizofrênico, os comunistas fascistas me combatem como trotskista, as pessoas sexualmente lascivas me acusaram de possuir um bordel, a polícia secreta alemã me perseguiu como bolchevique, a estadunidense como espião nazista, os charlatães da psiquiatria me chamaram de charlatão, os futuros salvadores do mundo me qualificaram de novo Jesus ou novo Lenin… Eu estou dedicado a outro trabalho que requer todo o tempo e a força da qual disponho: o trabalho sobre a estrutura irracional humana e o estudo da energia vital, descoberta há muitos anos. Em poucas palavras: estou dedicado a meu trabalho em orgonomia.”

(Wilhelm Reich)

Por Xavier Serrano