Posted on fev 25, 2017 in Blog | 0 comments

 

Há cerca de 24 anos, desde o paradigma da Ecologia dos Sistemas Humanos, nós buscamos formar uma mudança na educação e em como está funcionando o sistema educativo e a escola, tendo em conta a visão de Reich com a Autorregulação e o desenvolvimento saudável das crianças e adolescentes; a ideia de que a liberdade funciona (A. S. Neill); o legado da Escola Nova (Freinet, Froebel, Pestalozzi…); a educação libertária na Escola Moderna (Ferrer y Guardia); a Instituição Livre de Ensino (Giner de los Rios), entre outras propostas.

Nosso objetivo principal é que as crianças sejam felizes e que se desenvolvam como pessoas, indivíduos saudáveis, capazes de contatar seus desejos, necessidades,  e ilusões, consigo mesmos e com os demais. Assim, foi criado um espaço educativo diferente, “um espaço de crianças e adolescentes e para crianças e adolescentes”. Assim, nasceu Donyets, onde, atualmente, estudam pessoas entre 3 e 18 anos.

Acreditamos e verificamos que “a liberdade funciona”, afirmação que o educador A. S Neill fez há mais de 60 anos, através da sua experiência com a Summerhill, na Inglaterra. As crianças sabem o que querem, estão mais próximas do que nós de suas necessidades, choram desde que nascem quando têm fome, necessidade ou dor, sem que ninguém os ensine. Levantam o olhar buscando o contato, aprendem a falar, caminhar… da mesma maneira que o macaco aprende a trepar ou o pássaro a voar.

A criança, quando é permitida, se AUTORREGULA (conceito que Wilhelm Reich introduziu e que para nós é primordial). Se este processo não é interrompido, se o seu ritmo é realmente respeitado, a criança se manterá em contato com suas necessidades e poderá satisfazê-las, sentindo-se feliz e podendo ser mais flexível e crítica. Já o contrário   – a imposição, a limitação dos seus desejos, de sua capacidade de autorregular-se (dizer-lhe como e quando deve comer, ler, escrever, fazer xixi…) e a distância cada vez maior das suas próprias sensações e emoções – vai criando indivíduos adaptados, dóceis e domesticados.

Em nosso espaço educativo se estabelece uma “relação viva”, onde a criança/adolescente pode brincar, ler, assistir a uma oficina ou não, comer, construir, fazer contas ou dançar, segundo o próprio desejo e a motivação da criança no momento. Não se trata de “impor” (“Vamos ler e resolver um problema”). Muito menos de “adocicar”, coisa muito em moda nas escolas (“Vocês não gostariam? Pode ser muito divertido…”). Aqui, el@s são os protagonistas, sugerem e se cria uma relação de intercâmbio no dia a dia.

O importante é serem FELIZES e, para isso, se primam as vivências afetivas e emocionais por cima de qualquer outra consideração de índole academicista, curricular, de objetivos ou programações. Isso não impede que estejam presentes, mas de outras maneiras. A atenção está sobre a globalidade do indivíduo. Não se sabe mais ou menos, não se faz 4 ou 5 fichas ou se estuda Platão e Aristóteles. É mais importante como se sentem, que saibam defender seu espaço, expressar-se, chorar, enfadar-se, relacionar-se com o outro.

“Quando as necessidades emocionais estão cobertas, o resto vem sozinho”, dizia Winnicott, e a criança/adolescente feliz sente desejos de explorar, conhecer, aprender… saber criando um curriculum inacabável.

Partimos, assim, de uma aprendizagem-crescimento, desde o interior da criança, desde seus verdadeiros desejos e, sobretudo, de suas necessidades. Aquela aprendizagem que parte do meu interesse, da minha necessidade e que posso experimentar com materiais e vivências permanece em mim. Já a outra aprendizagem impositiva, vinda do exterior, se esquece. Não?

Neste marco, cria-se uma relação na qual aprendemos de todos. Não se trata do professor que sabe tudo e transmite a seus alunos o saber… Aqui, a aprendizagem é horizontal, tanto aprendemos com os adultos quanto com as crianças e vice-versa. É um intercâmbio de experiências, sensações e elementos que nos fazem crescer juntos no dia a dia, sendo crianças, educadores e pais.

O professor/educador mantém uma relação horizontal com a criança/adolescente. Sua função é observar, escutar, dar quando sente que deve fazê-lo, retirar-se quando seja necessário e, sobretudo, “contatar”, ter empatia com o grupo e com cada pessoa. A isso, Neill denominou “AUTORIDADE NATURAL”, onde o adulto não impõe, não obriga, e sim compartilha pareceres, falas e discussões.

Está claro que esta Autoridade Natural não está isenta de limites. Os limites são estruturantes para as pessoas. Nesse tipo de autoridade, entende-se como limites os perigos reais, os limites enquanto pessoas que convivemos em sociedade. Não podemos confundir tirania com liberdade – aquilo que eu não gosto de você ou do outro… Também  é preciso diferenciar os limites expansivos (que me permitem olhar e crescer) dos constritivos (que me produzem medo e contração).

Estas são algumas pinceladas de um modo de relação educativa diferente. Não acreditamos estar fazendo nada novo, sabemos que estes conceitos já são respaldados por muitos teóricos e pedagogos. Muitas experiências saíram à luz e morreram, outras perduram…

Para nós, o importante é ver que  estamos fazendo realidade e que podemos verificar, dia a dia e em todos estes anos de experiência, que vale à pena o caminho da luta pela liberdade do indivíduo. É desde a base que se vai colocando os pilares para a mudança social e pessoal. Sigamos caminhando…

Por Imma Serrano
Coordenadora do Espaço Livre Donyets, na Espanha. Psicoterapeuta caracteroanalítica, especialista em Criação Ecológica – Ecologia de Sistemas Humanos, junto com Jordi Maritnez (1957-2016) – In Memoriam